| Escrito por João Araújo, |
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Um ano acaba e outro começa, recordamos aquilo que fizemos, o que ficou por fazer e aquilo que esperamos vir a concretizar ao longo dos próximos 12 meses. 2009 nem sequer é um daqueles números particularmente inspiradores ou com algum significado especial, como por exemplo o (então) assustador 1999, a capicua 2002 ou 2010, que será Ano Santo, como sucede sempre que o 25 de Julho, dia de Santiago de Compostela, calha a um domingo. Para mim, no entanto, 2009 foi um ano sobre rodas, em que concretizei alguns sonhos e vivi inesquecíveis aventuras, sempre em boa companhia.
Vou recorrer a uma ordem cronológica e destacar os momentos mais marcantes, começando pelo fim-de-semana de 25 e 26 de Abril, quando meia dúzia de Patus Bravus (além de mim, o Patu, o Colaço, o Marinho, o Caldeira e o Beirão) e uma Pata se fizeram à estrada para percorrer os denominados “Fatima's Ways”. Os Caminhos de Fátima não têm a fama dos homólogos de Santiago, mas aqueles que nós percorremos foram bem divertidos e diversificados. É que além do já esperado parelelo e asfalto, percorremos trilhos de pura areia pelo meio de pinhais, ecovias, terra e gravilha... Houve de tudo e tudo aguentaram as nossas montadas – algumas eram bikes de montanha com rodas de estrada, outras eram bikes de estrada em que foram montados pneus ligeiramente mais largos do que o habitual 23. Foi o meu caso, pois converti a minha velhinha Gitane de estrada numa espécie de tourer/citadina, com guiador recto e pneus 28!
Ao cabo de duas etapas em que chegou a parecer que estávamos a tentar definir o oposto de uma recta, isto é, o caminho mais longo entre dois pontos, lá chegámos ao santuário. O regresso foi um misto de tristeza pela aventura que chegara ao fim e alegria pelo regresso a casa. Nada que a paragem na Mealhada para a obrigatória sande de leitão não resolvesse...
Sem Armstrong mas com o Lago de Sanábria aos nossos pés Seguiu-se a visita à etapa-rainha da Vuelta a Castilla y León, com o Patu e o João Santos, um dia fabuloso de ciclismo que nem a ausência do Lance Armstrong conseguiu manchar.
O “Capitão América” resolveu atirar-se ao soalho e partir uma clavícula antes da chegada à Laguna de los Peces. Segundo as más-línguas, ouvira falar de uns portugueses que se preparavam para lhe “fazer a folha”... Seja como for, lá nos fizemos ao caminho a bordo da saudosa “pick-up” da PatoCycles, com as bikes de estrada lá atrás.
A Laguna de los Peces é uma subida de 20 Km, que serpenteia encosta acima quase sempre com vista para o lindíssimo Lago de Sanábria. Se a isto juntarmos o magnífico dia de céu limpo que esteva e a neve que ainda havia nos 1700 metros de altitude onde fora colocada a meta, dá uma ideia daquilo que vivenciámos.
É claro que eu continuarei a veicular a teoria que foram os pimentos dos bocadillos que comemos antes de começar a pedalar os responsáveis pelo meu atraso na chegada... Subi à frente do Joaquim Gomes na Etapa da Volta! Os passeios a meio da semana, ao sábado à tarde ou domingo de manhã continuaram a preencher as semanas entre uma aventura e outra. Num desses domingueiros, por exemplo, reencontrei um amigo que não via há uns dez anos e por intermédio dele conheci outros cicloturistas, o que me permitiu cumprir a aventura seguinte na sua companhia. Agosto, é o mês dos emigrantes e também da Volta a Portugal, que desde há três anos inclui a Etapa da Volta.  Foi uma oportunidade excelente para rolar por estradas fechadas ao trânsito, entre a Lixa e o alto de Santa Quitéria, em Felgueiras. Foi também uma oportunidade para constatar a ignorância de uns quantos no que toca a andar em pelotão ou de outros, que levam ao limite a imitação dos profissionais e fazem questão de poluir as bermas das estradas com garrafas de plástico que orgulhosamente lançam pelo ar... O balanço, porém, só podia ser positivo, pois não é todos os dias que se tem o privilégio de subir os 12 km da Lameira ao lado e depois à frente do mítico Joaquim Gomes ou descer até Felgueiras a todo o gás e no meio da confusão do pelotão e dos carros de apoio! Camino del Norte: realidade ou sonho? Setembro finalmente chegou e com ele a grande aventura: o Caminho de Santiago do Norte.
Na companhia do Colaço, parti de Santander no dia 4. Seis dias, 640 km e muita camaradagem depois, lá estávamos na Praza do Obradoiro, em frente à Catedral de Santiago.  Foi como se aquelas seis ou sete horas diárias a pedalar, durante sete dias, tivessem passado num ápice; como se as intermináveis montanhas galegas não passassem de uma mera recordação;
como se os dias de sol, a rolar junto às praias asturianas, com o azul do Mar Cantábrico ali ao lado, não tivessem passado de uma óptima alucinação... 
Mas não, foram bem reais – ou não tivesse passado o fim-de-semana seguinte praticamente só a comer e dormir! Novembro e o nevão no Xurês O grande objectivo do ano tinha ficado para trás, mas Novembro reservara ainda uma surpresa de proporções épicas: a Rota das Sombras, no Xurês (o Gerês espanhol), num dia que começou com chuva torrencial, que se transformou num memorável nevão ainda antes dos mil metros de altitude,  e terminou na piscina de água quente na nascente do Rio Caldo.
Não bastava tudo isto e a beleza da paisagem, ainda terminámos o dia frente a umas respeitáveis costeletas. O regresso a casa deu-se ao anoitecer, com o percurso até às Caldas do Gerês emoldurado pelo branco das bermas, cobertas de neve, a dar aquele toque poético a um dia já de si inesquecível. 2009 chega ao fim, nasce 2010 e com ele novos projectos e certamente novas aventuras. Porque o prazer de pedalar – como o das outras coisas boas da vida – não começa nem acaba em cima da bicicleta. Começa na planificação e multiplica-se nas recordações. João Araújo
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